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O Presbiterianismo

   Reforma Calvinista Em Genebra

Os milhões que aceitam a fé reformada creditam a Calvino a mais importante fundamentação doutrinária do movimento que abalou no século XVI as estruturas de poder do catolicismo romano. A esta fundamentação deu-se o nome de Calvinismo e a forma de organização eclesiástica concebida pelo reformador de Genebra de Presbiterianismo, que transformou Genebra no modelo de execução de suas idéias.

Calvino era de família camponesa, mas o pai de Calvino era um tabelião que fez do filho um membro da classe profissional. A formação universitária de Calvino foi feita de filosofia e teologia, porém com grande ênfase humanista. Não gozava de boa saúde e preferia os estudos a vida familiar. Enquanto Lutero enfatizava a pregação, Calvino ocupava-se mais em sistematizar a teologia formal. Lutero deu ênfase maior à justificação pela fé, enquanto Calvino sobre a Soberania de Deus. Calvino defendia uma eleição dupla, tanto para a salvação quanto para a condenação, sem mérito do eleito ou presciência de Deus, sabendo de antemão aqueles que creriam.

Ele nasceu na França e conheceu as idéias protestantes através de seu primo quando estudava na Universidade de Paris. Converteu-se e colaborou com Nicholas Cop na elaboração de um documento contendo idéias humanistas e reformadas. Foi forçado a deixar a França e seguiu para a Basiléia, onde terminou a sua grande obra As Institutas da Religião Cristã. Ele tinha apenas 26 anos de idade e dedicou a obra ao rei Francisco I da França na tentativa de impedir a perseguição da igreja católica contra os protestantes franceses chamados de huguenotes. O apelo de Calvino não deu resultado, mais tarde na famosa noite de São Bartolomeu milhares de huguenotes foram massacrados em Paris.

As primeiras letras dos principais termos da teologia de Calvino formavam o anagrama TULIP: ele acentuava a Totalidade da depravação humana, entendendo que o homem herdou a culpa do pecado de Adão e nada pode fazer pela sua salvação, uma vez que sua vontade está totalmente corrompida. Calvino ensinava que a salvação é um assunto de eleição incondicional (Unconditional surrender) e independente do mérito humano ou da presciência de Deus. Limitação da redenção, a obra de Cristo na cruz é restringida aos eleitos para a salvação. Doutrina da Irresistibilidade da Graça, o eleito é salvo independentemente da sua vontade, uma vez que sua conversão é dirigida pelo Espírito Santo. Perseverança dos santos, o eleito jamais se perderá, uma vez que é obra do Espírito sustenta-lo na fé e produzindo frutos espirituais.

Todavia, quem trouxe os pressupostos da fé reformada para Genebra foi o também francês Guilherme Farel, de carisma profético, convenceu a assembléia municipal de Genebra a aceitar a fé reformada. Farel se tornaria o grande amigo e colaborador de Calvino. Juntos reformaram a igreja de Genebra, bem como estenderam a reforma para a sociedade civil. Promulgaram as Ordenanças Eclesiásticas, onde definiam as atividades de quatro classes de oficiais: ministros, presbíteros, diáconos e mestres. Calvino deu grande ênfase na educação básica e no conhecimento das escrituras. Preocupou-se sobremaneira com a questão da disciplina e dos padrões morais dos crentes, proibindo a dança, prostituição, teatro, jogos de azar e vadiagem nos limites municipais. É bom lembrar que na Genebra de Calvino e Farel não havia separação entre Igreja e Estado; os membros do Conselho da Igreja eram praticamente os mesmos membros do Conselho Municipal. Assim, em muitos momentos, as penalidades tornaram-se severas demais. Em 1546 o conselho da cidade executou 28 pessoas e exilou 76 para fora dos limites da cidade.

A maior contribuição de Calvino para a fé reformada foram suas Institutas, aceitas como expressão acabada da teologia reformada, acentuando a importância da sã doutrina e a centralidade de Cristo na cosmovisão cristã. Deu grande contribuição para o desenvolvimento da democracia no ocidente, porque aceitou o principio representativo da direção da Igreja e do Estado, entendia que a Igreja e o Estado foram criados por Deus e que devem cooperar para o progresso do cristianismo. Contrariando a mentalidade medieval, Calvino resgatou a dignidade do trabalho, uma vez que toda a ação dos crentes era para a honra e gloria de Deus. Na sua visão de mundo não havia dicotomia entre atividades profanas e sagradas, a vida do crente deveria ser uma extensão da vida no templo. O desenvolvimento econômico foi evidente nas nações modernas que abraçaram a fé reformada.

   A Fé Reformadora Na Escócia

Quanto à reforma da Inglaterra, a religião esteve dominada pela política, na reforma escocesa, a política foi dominada pela religião. Os barões e as classes médias urbanas se uniram a John Knox contra a coroa para fazer a reforma. Na Inglaterra a reforma veio em forma de decreto real, portanto de cima para baixo. Em lugar algum, exceção de Genebra, a teologia de Calvino exerceu maior influência do que na Escócia de John Knox.

A falta de um rei que centralizasse o poder em suas mãos, proporcionou um verdadeiro clima de anarquia social, deteriorando os valores morais e religiosos. Os líderes da Igreja Católica na Escócia estavam entregues a depravação, como embriaguez, simonia, concubinato e ganância por dinheiro. Esta crise moral foi a principal razão para eclosão da reforma em terras escocesas. Antes da atuação de John Knox em favor da fé reformada, Patrick Hamilton já enfatizava os ensinos de Lutero e, por chamar o papa de anticristo foi queimado em 1528, assim como George Wishart em 1546. Este mártir da reforma foi uma influência extremamente importante para John Knox.

John Knox era um homem corajoso, mas as vezes chocava os irmãos pela rispidez. Dizia que não temia a ninguém, exceto a Deus. Estudou na Universidade de Glasgow e ordenado ao ministério em 1530. Perseguido na Escócia em função da ascensão da rainha católica Mary Tudor, Knox se exilou em Frankfurt onde teve contato com o calvinismo. Considerava Calvino o o notável servo de Deus. Depois da queda de Mary Tudor e a ascensão de sua irmã Elizabeth, Knox retorna à Escócia e aliado aos nobres fizeram um pacto de usar suas vidas e seus bens para estabelecer a Palavra de Deus na Escócia.

O parlamento escocês se reuniu em 1560 e, sob a orientação de Knox, deu inicio a obra da reforma. Cortaram as relações com o Vaticano, declarou ilegal a missa, revogou todos os decretos contra os hereges e implantou a primeira confissão de fé da Escócia de inspiração calvinista, perdurando até a confissão de fé de Westmister em 1646. A Igreja escocesa também se organizou em presbitérios, sínodos e uma assembléia nacional, com o sistema representativo eclesiástico de anciãos, similar ao utilizado na Genebra de Calvino.

John Knox morreu em 1572. Como a classe média mantinha o controle político, o sistema político de governo e a teologia calvinista foram logo absorvidos pelo povo escocês. A reforma escocesa atingiu indiretamente os Estados Unidos da América, pois muitos presbiterianos escoceses migraram para a Irlanda do Norte no século XVII e perseguidos pelos católicos, migraram para a América do Norte. No final do século XIX chegam ao Brasil através da obra missionária da Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos da América.

   A Reforma Na Suiça

A Suíça era o território mais livre da Europa na época da Reforma, embora integrasse formalmente o Sacro Império Romano. Por causa do seu sólido espírito democrático, os mercenários suíços eram requisitados em toda a Europa. Foram eles que encheram os exércitos que o papado organizou para defender seus interesses pela força das armas. As cidades suíças gozavam de grande autonomia política, encontrando-se livres para escolher a forma de religião que quisessem. As cidades suíças eram também centros de cultura onde o humanismo floresceu generosamente. Basiléia tinha uma universidade de renome e foi lá que o grande Erasmo editou seu Novo Testamento grego.

Três vertentes da Teologia Reformada se desenvolveram na Suíça no século XVI. O norte, de fala alemã, esteve sob a liderança de Ulrich Zwinglio. O sul, liderado por Genebra, seguiram Calvino. Na facção radical se encontravam os anabatistas, espalhando-se pela Suíça, Alemanha e Holanda, onde o movimento se consolidou sob a liderança de Menno Simmons.

Zwinglio (1484-1531), é identificado como o pioneiro dos reformadores na Suíça. Antes de tornar-se grande líder reformado, Zwinglio era um humanista que devotava grande simpatia pela obra de Erasmo, mas sem nenhuma paixão pela teologia. Em 1519, uma epidemia de peste bubônica e contato com as idéias de Lutero, levou Zwinglio a uma experiência de conversão.

Ele levantou a primeira bandeira da Reforma ao afirmar publicamente que os dízimos pagos pelos crentes não eram uma exigência divina, mas num ato de voluntariedade. Em face das controvérsias, o conselho da cidade de Zurich convocou um debate público onde o reformador compareceu com 67 artigos, onde insistia na salvação pela fé, na autoridade exclusiva da Bíblia, na supremacia de Cristo na igreja e o direito dos sacerdotes ao casamento. Condenavam-se também todas as práticas da igreja que não tivessem respaldo na Bíblia. Ele demonstrou ser um excelente debatedor. O conselho da cidade acolheu suas argumentações e o protestantismo nascia na Suíça, onde Estado e Igreja se uniam numa forte teocracia.

Outras cidades da Suíça aderiram à Reforma, tornando-se necessária uma forma de organização religiosa, em 1527 foi formado o primeiro Sínodo das Igrejas Evangélicas da Suíça. Mas, não foram todas as regiões da Suíça que aderiram ao protestantismo de Zwinglio, os cantões rurais permaneceram fiéis a Roma e a guerra aberta estava declarada entre católicos e protestantes. O conflito só terminou com o acordo de paz que dava liberdade para as cidades escolherem sua forma de credo. Zwinglio morreu na tentativa de conquistar Genebra, passando a liderança do movimento reformado para o francês João Calvino.



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